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 lavra... Boletim de Poesia
Conto

O ANJO DEFICIENTE

Era uma vez um menino (a estória começa assim, e já não sei se a sonhei, se ma contaram a mim).
De qualquer forma, é tão gira que não deixo de a contar.
Escutem-na, pois, com atenção, que é uma estória de pasmar.

Era uma vez um menino irrequieto e teimoso. Muito rico, tinha tudo, mas era mau, orgulhoso. Não se dava com ninguém, julgava-se tão importante que até dos próprios colegas estava sempre distante. Nunca brincava com eles nem, ao menos, lhes falava. Virava as costas a todos e a todos desprezava, porque ele tinha tudo: comboios, carros, aviões, cd’s e computadores, barcos e foguetões; tinha brinquedos a esmo, tinha jogos aos montões, bicicletas, patins, tinha enormes camiões, tinha gruas, tinha barcos, violas e acordeões, tinha lindas espingardas e gigantescos canhões; tinha arcos, setas, pistolas, tinha índios aos milhões, tinha pianos, violinos, tinha gigantes e anões, bonecos articulados, elefantes e leões, tinha palhaços que riam e que davam trambolhões.

Tinha tudo este menino, tinha tanta, tanta coisa que não brincava com nada e, se alguma coisa fazia com os seus divertimentos, era parti-los em pedaços, em pequenos elementos, e não sentia a alegria que sentiam os colegas com os seus próprios inventos, os colegas que brincavam com carros de rolamentos, que jogavam à sameira nas bermas dos pavimentos, que sabiam transformar um pedaço de papel no mais saboroso invento: num avião, num batel ou mesmo num viravento, até mesmo um foguetão, e, de um pedaço de arame, faziam uma bicicleta, e da vara de um guarda-chuva faziam um arco e uma seta, com pedaços de madeira cheios de pregos e pó, bastava pôr-lhes um fio e era logo um trenó.
E o nosso menino rico que nada disto sabia, de cada vez que brincava tinha menos alegria. De facto, não precisava de pensar ou de inventar: aquilo que desejava tinha à mão de semear. E a criada, coitada, era a que mais aturava com as birras do Pedrinho que tanto a arreliava.
Até que um dia, em Dezembro, pouco antes do Natal, começaram a fazer um Presépio colossal. O Pedrinho, agitado, foi às gavetas buscar bonecos de porcelana coloridos, a brilhar.

Nossa Senhora era enorme e tinha um manto azulado de veludo, tão macio, e todo a oiro bordado.
S. José, o Carpinteiro, que tinha cabelo loiro, vestia um manto castanho também bordado a oiro. Os Reis Magos, imponentes, traziam cofres de metal e os camelos, gigantes, eram todos de cabedal. Os cordeiros, pequeninos, eram brancos como a cal e estavam todos cobertos por lã fina e natural.
A própria vaca, agachada, cheirava mesmo a jasmim, a preto e branco pintada e com cornos de marfim. O burrito era cinzento e tinha um pelo sedoso, e abanava o pescoço todo feliz e garboso. Lá no alto havia a estrela que inundava de luz (com uma lâmpada por trás) o bom Menino Jesus. O bom Menino Jesus, numa caminha deitado, sobre palhas feitas de oiro, num riquíssimo brocado.
Estavam todos tão contentes, que até se iam esquecendo de pôr o anjinho branco que do céu vinha descendo e, quando deram por ela, o Pedrinho, a protestar, pega no anjo com raiva e vai pô-lo no seu lugar. Fê-lo, porém, de tal forma, tão brusco e arreliado, que escorregou no soalho e caiu desamparado! E ao seu lado ficou o anjo feito em pedaços, com o corpo para um lado e para o outro... os dois braços!
Batendo com os pés no chão e teimando, renitente, o Pedrinho jogou fora o anjo deficiente.
O Papá ainda tentou, a Mamã ainda quis colar os braços do anjo mas, o Pedrinho, infeliz, teimoso, desobediente, não queria no Presépio um anjo deficiente. E o anjo foi para o lixo com os dois braços partidos. Em seu lugar, colocaram outro de lindos vestidos.
Entretanto, já na rua, um colega do Pedrinho viu, no caixote do lixo, os restos daquele anjinho.
Como era muito pobre, fez um Presépio em cartão, com bonecos desenhados por pedaços de carvão e aproveitou o anjinho, o tal dos braços quebrados, e, colando-os com carinho, pô-los de novo ligados. Meteu-o no seu Presépio e, como não tinha luz, para que o Menino o visse pô-lo ao lado de Jesus.

Chega a Noite de Natal e, em casa do Pedrinho, estava tudo tão contente! Estava tudo tão quentinho que até o próprio Pedrinho estava feliz, sorridente. Havia pinhões e figos, uvas-passas, rabanadas, avelãs, amêndoas e bolos e frutas cristalizadas, tortas, aletria e nozes, bolo-rei, perú, pão-de-ló, pastéis, creme, filhozes, champanhe e Vinho do Porto e bolinhos de bolina, arroz-doce, frutas várias e licor de tangerina... Ei!, tanta coisa, meu Deus! Que aquela gente nem sabia distinguir bem o sabor de tanta coisa que comia.
Mas, perto da meia-noite, quando o Pai-Natal chegava e o Pedrinho, ansioso, suas prendas aguardava... fez-se escuro como breu, foi-se a luz, num arrepio, e o Pedrinho ficou cheio de medo... e de frio.
Parou o aquecimento. Nem uns aos outros se viam. Foi-se a alegria dos rostos: dos rostos que já não riam. Não tinham uma lanterna, nem ao menos uma vela, e o Pedrinho, muito triste, veio chorar p’rá janela...

Foi então que, ao longe, viu uma luz muito brilhante para lá do seu jardim, sobre um casebre distante!

E, pé – ante - pé, saiu para ver o que se passava, donde vinha aquela luz que tanto o fascinava. E seguiu pela estrada fora. Andou, andou, e já cansado chegou, finalmente, ao casebre, todo ele iluminado!

Espreitou pela janela: e que viu ele, afinal?
Viu o colega da escola celebrando o seu Natal. Era aquele menino pobre que recolhera o anjinho, afagando o Deus Menino com infinito carinho, um Deus Menino em cartão a fingir que era Jesus, com o Anjo deficiente a inundá-lo de luz. E era tal a luz do Anjo, enchendo a casa de luz, que até parecia que o Anjo era o Menino Jesus!
Bateu à porta o Pedrinho, muito triste e arrependido. Veio abrir-lha o colega, muito alegre e divertido.
- Que fazes aqui, Pedrinho? Eu não contava contigo, mas dás-me grande alegria se quiseres ficar comigo.
O Pedrinho, arrependido, a chorar, sentidamente, ajoelhou-se e beijou o Anjo deficiente.
Foi então que o Deus Menino (que era feito de cartão) se ergueu, beijando o Pedrinho e dando-lhe o seu perdão.
As coisas simples, amiguinhos, têm sempre mais valor se as rodearmos de carinhos e de muito, muito amor.


FERNANDO PEIXOTO

 
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